sexta-feira, 14 de maio de 2010

Cabôco bruto



Cabôco mais bruto no mundo não há
brabeza tamanha ninguém nunca viu
não há homem bronco assim no Brasil
que empate com ele pra fazer fuá
quando ele se achega esvazia o lugar
a feira se acaba no horário de pico
e nem passarinho não abre o bico
que o cabra não gosta de bicho amostrado
só come cabaço, só mata arrochado
só respeita Deus e só monta burrico!

O sol se arreda e de três horas cai
se ele disser que quer dormir mais cedo
valente de fama de esconde com medo
se entoca debaixo da cama e não sai
a policia ao vê-lo não diz nenhum ai
pois já tá cansada de tanto apanhar
e o último que tentou lhe afrontar
levou um cascudo tamanho que um osso
da sua cachola desceu do pescoço
e até hoje o pobre não pode obrar!

João Pessoa, 14/05/2010.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pé de Paixão



Do fundo do açude do meu pensamento
enchi uma cuia com caldo de sonho
pra matar a sede de um vão sentimento
que andava secando mofino tristonho
e a cuia com caldo de um sonho risonho
verteu quase toda molhando o chão
da entrada do sítio do meu coração
e onde esse caldo a terra molhou
com menos de um dia do solo brotou
um grande e esplêndido pé de paixão!

Jessé Costa, 11/05/2010.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Aversão & Anistia



Não entendo tanto ódio
no dizer de quem amou,
de quem já subiu ao pódio,
quem de amor se jubilou
e até quando terminou
falou bonito em perdão
em ter paz no coração
sem nutrir raiva ou rancor
para agora sem pudor
espalhar tanta aversão...

É triste ver tanta raiva
em alguém que tão bem quis,
inda mais quando pondero
que hoje sou mais feliz
sem macular o que fiz,
sem manchar o chão que andei,
sem criticar quem amei,
sem pisar para subir
ou falsamente sorrir
pra fingir que superei!

Eu te perdoei, meu bem,
e ainda hoje perdôo
sempre que ouço de outrem
tua raiva e teu caçôo...
te perdôo e livre eu vôo
como nunca em outra vez,
sem soberba ou altivez
te perdôo com carinho
daquele mesmo jeitinho
que você disse e não fez!

Jessé Costa, 10/05/2010.

sábado, 8 de maio de 2010

A melhor do mundo


Quero dizer-te que a culpa
D’eu ser tão feliz assim
e ter mantido a conduta
longe de tudo que é ruim
é retrato da aliança
onde destes como herança
tudo quanto é bom em mim!

E eu vou encher o tanque
do peito com emoção,
depois subir no palanque
que tem no teu coração
pra lá de cima gritar
que outra mãe igual não há
e tá ganha essa eleição!

Timbaúba, 08/05/2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Paulo pedreiro e o sonho de voltar



Paulo pedreiro peleja

Contra pisos, casas, muros

Faz a massa e a despeja

Num tijolo de oito furos

Erguendo sonhos futuros

De alguém que mal conhece

Enquanto o que lhe apetece

É voltar pra seu cercado

Replantar o seu roçado

E viver de sua messe!


Danou-se pra capital

Quando veio a grande seca

Deixando seu cabedal

Guardado só pela cerca

Mas hoje olhando pra Têca

Fala com vivacidade

Da paz e simplicidade

Que corria no curral,

No alpendre e no quintal...

- Eita Têca, que saudade!


E Paulo já fez projeto

De um grande galinheiro

Planejou tudo correto

Só lhe falta ter dinheiro

Pois a vida de pedreiro

Mal vence os gastos do mês

Mas se não for dessa vez

Logo mais noutro serviço

Paulo enriquece o toitiço

E volta pra Santa Inês!


João Pessoa, 07/05/2010.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Divagações



Se o sol deita no mar,
por que que não se apaga?
Se permanece a queimar,
por que que não ferve a água?
Se a chuva só enxágua,
por que o açude encheu?
E a nuvem que choveu
secou no mesmo segundo?
Quem sabe menos do mundo
sabe muito mais que eu!

Por que se teme o escuro
se é assim dentro da gente?
É verdade que o futuro
mora de frente ao presente?
Como saber realmente
se ganhou-se ou se perdeu?
Foi à maré que encheu
ou o mar já era fundo?
Quem sabe menos do mundo
sabe muito mais que eu!

Por que a batata doce
não sofre de diabete?
Por que que um sonho bom
nas noites não se repete?
Como quem nunca compete
pode dizer que venceu?
E todo o amor que morreu
deixa o peito infecundo?
Quem sabe menos do mundo
Sabe muito mais que eu!

João Pessoa, 05/05/2010.

domingo, 2 de maio de 2010

Pedro Operador de Prensa



Pedro operador de prensa
imprensando o pensamento.
São oito horas por dia;
haja sol, chuva ou vento;
frente à prensa ele não pensa,
usa apenas força intensa;
pois nunca quis estudar,
nunca teve paciência
pra diabo de ciência
e cedo foi trabalhar!

Pedro operador de prensa
é juntado com Maria,
sobrinha de quinto grau
da prima de sua tia.
É Maria Antonieta,
mas Pedro a chama de preta
e a preta o chama de amor,
coisa de quem muito ama:
na rede, no chão, na cama
só dá Pedro Operador!

E amanhã é feriado,
a fábrica fechará.
Pedro larga e vai pra casa,
mas antes para num bar...
Cansado e coçando os calos
toma cabeças-de-galos,
amendoim, catuaba
e imaginando a noite
pensa: vou dá-lhe um acoite
que hoje a Preta se acaba!

Pedro chega em casa afoito,
Preta sentada no chão
com um balde no seu colo:
tá debulhando feijão!
Cansada de lavar roupa,
tá só esperando a sopa
ferver e chegar no ponto;
já o Pedro impaciente,
com seu instinto fervente,
já tá pra mais do que pronto!

A sopa tava Insossa,
Preta é triste de panela,
mas Pedro nem fala nada,
pois gosta é das pernas dela.
E terminado o jantar:
olha a louça pra lavar...
Lá vai Preta pra cozinha!
Na sala a TV no jogo:
tá Pedro cheio de fogo
tomando uma cervejinha!

A Preta surge na sala,
já livre dos afazeres,
pronta pra o Operador
lhe operar vários prazeres;
Pedro a levanta no braço,
dá-lhe um primeiro regaço
e se dana para o quarto,
onde a cama já surrada
amanhecerá suada
e quase tendo um enfarto!

Pedro Operador e Preta
podem ser ignorantes,
porém são dois literatos
nos critérios de amantes;
não almejam muito ter,
muito ser ou parecer;
só querem levar a vida
e, nessa simplicidade,
vivem na felicidade
ou em coisa parecida!

Grande Pedro operador
que o que carece em vintém
sobra de muito no amor
que o seu coração retém,
Pedro operador de prensa:
se pouco fala, e não pensa,
compensa na atitude;
não quer ter riqueza ou casta,
só a sua Preta basta
pra viver na plenitude!

Pedro operador de prensa,
mínimo assalariado;
pouco fala, nunca pensa;
é semi-alfabetizado;
não tem carro, não tem casa,
seu salário sempre atrasa,
seu nome sujo na praça,
mas se a Preta não reclama,
se a Preta inda lhe ama,
tudo tem sentido e graça!

Timbaúba, 02/05/2010.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Ninguém nunca vai saber



Meu bem, se eu abrisse a boca
pra falar sobre você,
sei que ficarias louca
sem saber o que dizer!

Mas pela grande amplitude,
que meu sentimento tem,
se eu te conto toda a terra
escutaria também...

E os franceses parariam
em plena “Chanselisê”
e de amor se banhariam
se eu falasse de você!

Em Veneza os gondoleiros,
ao ouvirem meu falar,
pegariam seus barquinhos
e cruzariam o mar!

Os argentinos na copa,
pra chamar tua atenção,
cantariam nosso hino
torcendo pra seleção!

Os terroristas do Iraque
não mais se estourariam,
abortariam os ataques
e se apaixonariam!

A rainha da Inglaterra,
de tanto te invejar,
inventaria uma guerra
pra mais atenção chamar!

A Rússia e o tio Sam,
ao me ouvirem discorrer,
iriam se aliar
pra roubar, de mim, você...

E Deus vendo esse escarcéu
viria aqui intervir
e, de volta para o céu,
faria você subir!

Por isso não vou falar
o que sinto por você
e ninguém vai nem notar,
ninguém nunca vai saber!

João Pessoa, 28/04/2010.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Bebê e os Equilibristas

à minha sobrinha que está a caminho



Virás ao mundo montada
numa nuvem de bonança,
pequenina e delicada,
como um sopro de esperança;
atravessarás a sala
como quem não se abala
no mistério do futuro,
falando “mamãe-papai”
com um andar cai-não-cai
inconstante e inseguro!

Sobre a pontinha dos pés
vais correr de mão em mão,
dum lado ao outro e ao revés,
quase caindo no chão,
ante os olhos orgulhosos
de parentes, quase idosos,
bobos com tuas conquistas;
mas ao crescer notarás
que no mundo onde estás
todos são equilibristas!

João Pessoa, 23/04/2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Você é Linda!



Veja o que eu vejo ao olhar pra você
Olhe no espelho e observe por que
Cada momento ao teu lado é um sonho
E meu sorriso fica tão risonho

É, observa bem o teu espelho

Leia as linhas que ele descreve
Inunde em tua luz este aparelho
Note por que meu sorrir não prescreve
Dona, entenda quando eu destrambelho:
Ante o teu brilho meu senso entra em greve...
...VOCÊ É LINDA!

João Pessoa, 21/04/2010.

domingo, 18 de abril de 2010

Passarinho Correio



Acordei c’um passarinho
batendo em minha janela
(em seu pé um bilhetinho
e no bico a foto dela)!

Levantei os basculantes,
o passarinho entrou
deu alguns vôos rasantes
e sobre a cama pousou

Piscou os olhos, sorriu,
soltou a foto na cama;
cortou, com o bico, o fio
que prendia o telegrama

Bateu asas e voou,
cantando todo contente,
como quem se orgulhou
ao dar um grande presente!

Mas ele não percebeu,
inadvertidamente,
que, ao sair, se esqueceu
de deixar o remetente

e agora eu fico aqui,
olhando pra a foto dela,
curioso em descobrir
quem será esta donzela.

E, sendo muito sincero,
não entendo esse destino;
pois já sinto que a quero
desde quando era menino!

Mas naquele bilhetinho,
que a bela me endereçou,
junto as juras de carinho
seu nome não assinou

e o passarinho correio,
que cruzou minha janela,
não me contou donde veio,
nem me disse quem é ela!

João Pessoa, 18/04/2010.

Consêi de amigo


Olhe, eu não sei não viu! Por ser poeta, já sou um fudido por natureza; aí ainda me vem um infeliz das canelas raspadas pra dizer que eu sou viado, porque não me atraco com tudo que é rameira que se chegue de sorriso arreganhado e pernas sem fechadura... olhe, eu não sei não viu!

Meu pai sempre me ensinou a não negar fogo a uma mata que esteja querendo ser queimada, mas ele me ensinou também a não confundir mata com mato!

Ainda mais agora que eu estou andando certinho, fazendo direito, tomando cuidado pra não esculhambar mais ainda minha imagem já avacalhada com o sexo oposto; pra um aprendiz de cabra safado desses querer falar merda e ensinar repentista a fazer rima.

E o pior... pior é que esse desconchavado já tem a mulher dele, moça muito valiosa e merecedora de respeito.

Pois vá seu infeliz... se atraque com tudo que é rascunho de mulher, das feições mal desenhadas e de beleza catrevaginosa. Pois tu não acha isso bonito? Então continue a fazer!

Mas arrepare mesmo:




Toda aranha tece a teia
Numa malha majestosa
Invisível, pegajosa
Que no vão do ar se alteia
E o zangão, macho da “abêia”,
Fora do seu território
Se engancha nesse envoltório
Tava atrás de mais riqueza
Ficou preso e virou presa
Dum destino triste inglório...

Faz “parêia” c’um zangão
O “caba” que tem mulher
E ainda assim ele quer
Viver na depravação
Fique atento cidadão
Qu’esse mundo é “chêi” de manha
Quem bate amanhã apanha
Te aquieta com tua “abêia”
Pra não se lascar na teia
Por conta de outra aranha!

João Pessoa, 18/04/2011.

sábado, 17 de abril de 2010

O que eu digo e o que ela diz



O qu’eu digo e o qu’ela diz
são dois tipos de verdades,
são duas realidades:
a que ela fez e a qu’eu fiz.
Na minha eu sou bem feliz,
na dela, ela está curada,
na minha ela estava errada,
na dela eu fui a escória
e é assim que nossa história
segue sendo repassada!

O que eu fiz e o qu’ela fez
é outra jurisdição,
que está aquém do perdão
perante todas as leis;
porém erramos os três
erramos eu, ela e nós
em soltarmos nossa voz
para falar mal da vida
que foi muito bem vivida
antes de ficarmos sós!

João Pessoa, 17/04/2010.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sujeito ruim de conquista!



Sentiu sua escala Richter
bater no mais alto nível
e sacudir no seu corpo
o que tinha de tremível;
foi algo incompreensível,
ele tremeu tal e qual
uma Toyota Rural
que segue desgovernada
numa estrada esburacada
no meio de um matagal

Tentou falar, mas falhou;
gaguejou, bateu o queixo,
seu maxilar travou,
a voz faltou por desleixo,
seu olhar saiu do eixo,
sua coragem correu,
sua pele embranqueceu,
sua orelha fervilhou,
a coluna se envergou
e o seu moral morreu...

Porém, já que estava ali
parado na frente dela
e não podia fugir
sem ter fama de gazela
abraçou-se na procela
e findou por se enforcar,
pois inventou de falar
essa seguinte lambança:
Moça, topa uma dança
ou quer ir logo bimbar?!

João Pessoa, 14/04/2010.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Receita de bolo pra encontrar Alma Gêmea



Cuspa na sua beleza,
engrosse sua fineza,
quebre a banca, vire a mesa,
não se preocupe com nada;
ignore quem te chama,
vista aquele seu pijama,
se jogue num rio de lama
e saia para noitada!

Seja guenzo ou baranga,
finja que tudo lhe zanga,
se for rir faça moganga,
desconjure a simpatia;
use um cinto de barbante,
não use desodorante,
e seja mais irritante
que aquela sua tia!

Agora espere que alguém,
que não seja assim também,
traceje lhe querer bem
e então podes mudar,
pois nosso Eu pra valer,
mesmo se a gente esconder,
o mundo pode não ver,
mas o amor vai enxergar!

João Pessoa, 13/04/2010.

domingo, 11 de abril de 2010

Na corda que ela me dá!



Sua carinha de anjo
engana muito marmanjo
sai causando desarranjo
em tudo que é coração,
o seu jeitinho de santa
conquista enquanto encanta
e não há quem se garanta
ao ver tamanha visão!

Mas seu jeito é um contra-senso
pois o seu olhar intenso
passa um pudor imenso
como a imensidão do mar,
mas su’alma é obscena
e o seu jeitinho serena
no seu libido se empena
e só pensa em fornicar!

Sua arte é obtusa
e deixa a mente confusa,
ela usa e abusa
assim que o dia se acorda
ou então só lança o charme
faz barulho, faz alarme
até que o outro desarme
e engula sua corda!

Notei isso logo assim
que ela sorriu pra mim,
na mesa do botequim
e se pois a me encarar;
porém eu sou mais atroz,
um astuto albatroz,
e vou dar diversos nós
na corda que ela me dá!

João Pessoa, 11/04/2010.

Desce desse pé, menino!



Lá do alto daquela goiabeira ele enxergava toda a extensão da rua e, extrapolando estes limites, observava também as vias circunvizinhas.

Lá, onde o menino gostava de ficar, o vento ainda não podia ser flagrado ao deflagrar uma nuvem de formato estranho e nem o portão da fábrica de nuvens podia ser vislumbrado; mas, segurando naqueles galhos que dançavam ao ritmo que a brisa imprimia a copa da árvore, o infante sentia-se como fosse parte do céu.

Chegava, às vezes, a quase soltar aqueles galhos tortos para se abraçar a um passarinho que revoasse por perto.

Mal gostava de goiabas, mas todo dia religiosamente subia naquele pé.

Ah! E como o menino gostava de ficar ali... Às vezes passava a tarde inteira, equilibrista vigoroso, só esperando que o sol se deitasse em sua cama (que ficava pra o lado da rua de baixo) enquanto a lua se acendia no centro do céu.

Porém os mais velhos não o entendiam e assim o censuravam. Quantas vezes sua avó, seus pais ou mesmo um vizinho não o reprimiu. Já o menino, na pureza de sua alma, pensava: “Como deve ser triste ficar velho e esquecer o quanto é bom subir num ‘pé de qualquer coisa’ bem alto pra sentir os ventos da liberdade chacoalharem tudo o quanto há de bom no peito da gente.”

****************
E deveras é muito triste sim! Cresci e há tempos que não subo num “pé de árvore”. Em algum momento da minha vida eu esqueci de me lembrar do quanto isso era bom.

Fiquei velho e, cada vez mais, meu espelho mostra algo parecido com meus pais...

Sinto saudades da minha molequice. Preciso sair na rua. Preciso subir numa árvore... alguém aí quer caju? Tomara que os galhos me agüentem. Volto já!


“Menino desce daí,
não vê qu’isso é arriscado;
desce pra tu não cair
e ficar todo empenado;
desce ligeiro senão
chamo teus pais e então
você vai ser castigado!”

Assim sua avó dizia
quando ao lhe procurar
trepado em cima de um pé
dava por lhe encontrar:
pé de manga, carambola
cajarana, graviola
pitomba, caju, cajá...

Mas subir num pé de fruta
pr’um coração de menino
é voar na catapulta
e, de Deus, tirar um fino;
é o auge da aventura
alcançar tamanha altura
mesmo sendo pequenino!

Mas sua avó não sabia,
ou talvez não se lembrava,
do torpor e a alegria
que estar lá encima dava
e por isso reprimia
o menino que subia
e de lá não se arredava!

Enquanto o moleque mouco
no cume daquela copa,
tendo a sensação de ver
até parte da Europa,
voava em seus pensamentos
vendo as nuvens e os ventos
batalhar com suas tropas!

João Pessoa, 11/04/2010.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Na mansão que a rosa vive



Não me dê tanto carinho;
não cuide tão bem de mim;
não me faça este charminho;
não fale baixinho assim;
não me lance estes sorrisos;
não me dê tantos motivos;
por favor, não me cative;
pois é certo minha queda,
que o espinho não se hospeda
na mansão que a rosa vive!

Seu olhar é fascinante,
seu sorriso me enfeitiça
e a sua voz ressoante
piora minha doidiça.
E se eu seguir te gostando
vou estar me aventurando
onde ninguém sobrevive,
vou pular sem pára-quedas,
que o espinho não se hospeda
na mansão que a rosa vive!

Mas acho que vale o pinho
tentar te fazer feliz;
pois, se hoje sou espinho,
ser flor um dia eu já quis
e eu vou me empenhar
pra o amor, de mim, gostar
e que assim me adjetive
em algo que te arremeda,
que o espinho não se hospeda
na mansão que a rosa vive!

João Pessoa, 06/04/2010
Mote de João Paraibano

Glosas de Jessé Costa

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Teu Rosto



Tuas sardas são estrelas
fugidas do firmamento
que encontraram aposento
por entre tuas orelhas
e à sombra das sobrancelhas
mais lindas do universo
mora um olhar perverso,
perverso por ser tão belo;
e eu nessa visão congelo,
perco o verbo, perco o verso...

Teus olhos são duas luas
que alumiam tua face
e se o teu sorriso nasce
ilumina toda a rua;
tua tez espalha, nua,
o tom da tua emoção
e estas tuas sardas são
estrelas num céu de agosto
que desenham em teu rosto
a tua constelação!

João Pessoa, 02/04/2010.

terça-feira, 30 de março de 2010

Feições que Tapeiam


Cuidado, não julgue alguém
olhando só a voluta,
pois o terno que ele tem
e a primorosa conduta
dissimulam sua essência
e detrás dessa aparência
se esconde um fela da puta!

Não queira julgar ninguém
logo assim que bate a vista,
pois um vigário também
pode ser um terrorista
e um seguidor do alcorão,
chêi de mala no saguão,
pode ser só um turista!

Assim não faça juízo
se não conhece o rapaz,
pois o seu jeito de liso
esconde a grana que trás
e foi julgando que a cruz
levantou-se com Jesus
ao invés de Barrabás!

Lembre-se: Buda era gordo,
Gandhi era esmolambado,
Madre Tereza fraquinha,
Frei Damião envergado,
o PT era do povo,
Collor bonitinho e novo...
E tá dado meu recado!

João Pessoa, 30/03/2010.

domingo, 28 de março de 2010

Aviãozinho de Papel



Desenhei meu coração
num pedaço de papel,
fiz da folha um avião
depois sacudi no céu
e o avião turbinou-se,
para o espaço danou-se
mais veloz que um corcel!

Foi alto pra ter mais vista
e assim lá procurar
dentre todas qual a pista
que lhe serve pra pousar
e só não desceu ainda
por ter muita pista linda
querendo lhe aterrissar...

Este avião de papel
no espaço sideral
se gravita em carrossel
buscando em terra um sinal,
arrudeando o planeta
como que fosse um cometa
ou um ser celestial

Sem perder de vista o mundo
e também as belas pistas
segue seu vôo fecundo
sozinho, como os autistas,
carregando em sua face
um coração que renasce
pronto pra novas conquistas!

João Pessoa, 28/03/2010.

Iluminado



Foi começando outro dia
e nele o carro do sol
subiu rasgando o arrebol,
com a luz que principia,
e então a profecia
do profeta infiel
surgiu bem neste painel
sem ninguém nem perceber:
o sol deu a luz a um Ser
que então caiu do céu!

Nasceu um iluminado,
filho do astro solar,
capaz de alumiar
o temporal mais nublado
e este Ser encantado
teve do sol a missão
de vagar sem direção
pelos caminhos da terra
salvando quem se aterra
nos poços da escuridão!

Este Ser, sã criação
que rezou a profecia
não mais é que a poesia
que ilumina um coração,
filha do sol, a visão
d’um mundo “primaverado”
onde o sombrio é fadado
a morrer na indireta
dos traços de um poeta
e seu Ser iluminado!

João Pessoa, 28/03/2010.

sábado, 27 de março de 2010

Dou um doce...



Você pode até falar
e fazer minha caveira
esquentando minha orelha
de tanto me difamar,
mas você perceberá
que seus tiros de festim
não vão te levar a um fim
e eu tou pagando pra ver:
Dou um doce se você
um dia esquecer de mim!

Da minha vida sumiste
como uma fugitiva
e usaste a prerrogativa
de ainda estar muito triste,
porém logo mais se vistes
nos braços de outro afim
usando esse arlequim
pra tentar me esquecer!
Dou um doce se você
um dia esquecer de mim!

Mudaste como quem muda
de sutiã e calcinha
pensando ser nesta linha
que passa o trem da ajuda,
porém se alguém te estuda
vê que não é bem assim
e nem um Marcos Pasquim
irá te satisfazer
Dou um doce se você
um dia esquecer de mim!

Pois nas noites de luar
mesmo que com outro estejas
notarás que o que desejas
é do meu beijo provar
mas só poderás beijar
a boca de um manequim
e verás o quanto é ruim
amar e não poder ter!
Dou um doce se você
um dia esquecer de mim!

João Pessoa, 27/03/2010.
Mote de Wellington Vicente
Glosas de Jessé Costa

domingo, 21 de março de 2010

Carta ao Cupido



Um homem entra no bar tendo nos olhos uma expressão intensa, porém vaga. Solitário ele afunda numa cadeira e roga ao garçom por uma dose de cachaça! (Como pôde ela tê-lo deixado? Como pôde aquele homem, outrora tão forte, estar tão fraco?)

Já se passaram duas horas desde que ele adentrou no recinto e já se foram duas garrafas de cachaça...

O homem, então, pede ao garçom um retalho de papel. Está bêbado e mais poeta do que nunca. Está decidido: vai escrever uma carta!

É então que o ébrio poeta começa a inundar de tristezas, derramadas nos traços do grafite, aquele pedaço de papel. Ele escreve com a voracidade de quem muito esperou e pouco tempo tem. Ele escreve sem parar, mal respirando. Sua dose agora continua no copo, sem a menor pretensão de ser consumida. Ele apenas escreve, escreve e escreve...

Desta forma, sem fazer uso do sobejo de sanidade que lhe restava, ele compõe esta epístola para o tal cupido, que tanto o fizera sofrer:


Ilustríssimo arqueiro,
gostaria de saber
por que desferiste a flecha
que hoje me faz sofrer?
Será que eu merecia
amar quem não me queria
ou será que foi você
que esqueceu de alvejar
e assim fazer me amar
quem me fizeste querer?

Sublime senhor cupido,
eu tenho toda razão
de estar aborrecido
com esta situação,
pois depois da tua flechada
não vejo graça em mais nada
que não me lembre daquela
que tu displicentemente
colaste em minha mente
sem me colocar na dela...

Agora veja você,
analise a conjuntura,
hoje eu vivo a beber
afogando a amargura
no álcool, esse elixir
que me ajuda a reprimir
a imensa dor que carrego
por não ser o detentor
da dona do meu amor,
da flor que eu tanto rego!

E assim, divino ser,
deixo-lhe aqui minha queixa
torcendo pra o senhor ler
e lendo, então, que se mexa;
pois no ponto em que me encontro
logo mais me desencontro
da razão de se viver
e eu digo: Falta bem pouco
qu’eu já tou ficando louco
e escrevendo pra você!

PS.: Senhor cupido
deixo uma sugestão
não desfaça seu encanto
só conclua sua missão!
Pegue uma flecha amarela
escreva meu nome nela
e arremesse no meu bem
pra que ela se derrame
e para que sempre me ame
como eu a amo também!

João Pessoa, 21/03/2010.

domingo, 14 de março de 2010

O Parquinho


Desce um sonho de menino
no escorrego da lembrança
quando o tempo, sem destino,
deixava-nos ser criança!

Sobe e desce um sorriso
na gangorra da memória,
um pretérito preciso,
pedaço de nossa história!

Vai e volta à esperança
num balanço de saudade
daquela inocência mansa
cheia de felicidade!

E a toda velocidade
gira a roda do passado,
onde o medo e a liberdade
caminhavam lado a lado!

João Pessoa, 14/03/2010.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Fulô do Flamboyant



Oh fulô do Flamboyant!
Enfim tu desabrochaste;
tão rubra, porém tão sã,
que o caos do dia acalmaste!

E quem passa nesta praça,
ao te ver, logo já sente
todo torpor que transpassa
do teu encarnado ardente!

Já tu (Oh linda fulô!),
nos olhares, perseguida;
acentuas tua cor,
de vergonha, enrubescida!

Mas, fulô do flamboyant,
não se ponha envergonhada
por ser a fulô terça,
no outono, tão sonhada!

Pois logo o triste inverno,
teu vigor, irar ceifar
até que volte o outono
pra, de novo, de pintar!

E eu aqui sabendo disto,
com o coração na mão,
rogo-te e peço o visto
da tua compreensão!

Peço-te, sem hesitar,
linda flor do Flamboyant:
Deixe eu viver a te olhar
enquanto houver amanhã!

João Pessoa, 11/03/2010.

terça-feira, 9 de março de 2010

Ela!

Ela é assim tão meiga
que a todo mundo conquista.
Seu riso torna manteiga
o peito que à avista!
Seu olhar é vida pura.
Em verde ela é madura,
em azul ela é serena,
para o mundo ela é um anjo
e ao coração do marmanjo
é lei que prende e condena!

Ela é dessas raridades:
uma mulher obra-prima!
Ela cresceu sem maldades,
tem a alma de menina!
Ela é toda amorosa,
doce, terna, carinhosa,
etc. e coisa e tal...
Ela é sorriso no tédio!
Ela é o melhor remédio
pra qualquer tipo de mal!


João Pessoa, 09/03/2010.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Eu corri porqu'era mole



Alaíde, Adalgisa
Alessandra, Aletéia
Angelita, Albenisa
Araceli e Andréia
Adriana, Adelina
Adelaide, Afonsina
Arenice e Arlete
Anatole, Aureliana
Aparecida, Alana
Ariovanda, Anete!

Bárbara, Benta e Bete
Bianca, Brenda, Belina
Berenice, Bernadete
Bruna, Branca, Bernadina
Cacilda, Carla, Carlene
Claudenice, Claudilene
Cleide, Clécia, Cleonice
Clementina, Cris, Chaiane
Coralina, Cristiane
Cremilda, Creusa, Clarisse!

Dagmar, Dâni, Daiane
Dafne, Dalva e Darlene
Débora, Délia, Diane
Dioclécia, Dulcilene
Dejanira, Darcivana
Denazaide, Deliana
Dilma, Diva, Divinéia
Derci, Desirré, Dantela
Deodora, Daniela
Dora, Deise, Dulcinéia!

Edilaine e Efigênia
Eleonora, Eloísa
Érica, Edna, Ênia
Ermelinda, Ema, Elisa
Emanuelle, Emeline
Expedita, Eveline
Etiene, Erundina
Eunice e Elisete
Edineusa, Elisabete
Eleutéria, Etelvina!

Fabiane, Filomena
Flávia, Flúvia, Florentina
E tem mais uma centena
E essa lista não termina
Me confesso um mequetrefe
E parando pelo "efe"
Digo: foi mulher a fole
Foi mulher até o Z
Que queria o meu querer
E eu corri porqu'era mole!

Timbaúba, 01/03/2010.

sábado, 6 de março de 2010

A Peleja de Biuzin com a Morte

No interior dos roçados
Tem cada coisa maluca,
Cada causo do encantado,
Mal-assombro de arapuca,
Qu’eu sempre fico espantado
Como que um semi-letrado
Tem tanto tino na cuca!

E Biuzin é um desses seres,
Matuto muito do astuto,
Que quando sem afazeres
Puxa do seu cocuruto
Uma estória encantada
Muito bem fantasiada
Dando-lhe novo atributo!

Eu vou lhes dar uma amostra
Das estórias que ele conta,
Onde a criatividade
Segue muito além da conta
E esta estória é bem forte,
Pois conta o dia em que a morte
Tentou fazer-lhe uma afronta:

A morte chegou num sonho
Que Biuzin teve outro dia
E com seu jeito medonho
Quis lhe fazer companhia,
Mas Biuzin sem embaraço
Deu-lhe um pau, deu-lhe um regaço
Que a morte quase morria!

Ele me contou a arenga
Que no sonho aconteceu,
Disse que sem lenga-lenga
A morte lhe apareceu,
Veio em sua direção
Com uma foice na mão
E um capuz da cor do breu!

Disse que ele não abriu,
Nem sequer se arrepiou,
Olhou pra ela, grunhiu,
A sua faca puxou;
Esperou (dando-se ao luxo)
E deu-lhe a faca no bucho
Quando ela se aproximou!

Disse então que alí a morte
Arregalou dois oião,
Colou as mãos no corte,
Que a foice caiu no chão,
Olhou pra ele com medo;
Sussurrou, mexeu o dedo
E sumiu de supetão...

Emendou que a tinhosa
Antes de se escafeder
Sussurrara melindrosa
Que não iria volver,
Pois era uma morte fraca
Pra enfrentar sua faca
E fazer ele morrer...

-Eita sonho sem noção!
Eu de besta ainda disse,
Mas Biuzin falou: “Pois não
Parece até maluquice...
Pois quando eu me acordei
No chão do quarto encontrei
Esta foice aqui, já visse...?”

João Pessoa, 06/03/2010.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Essência

O ser humano é feito de medos
Medos do dia ou medos da noite
Medos traumáticos ou medos ledos
Medos do afago ou medos do açoite!

O ser humano é feito de dores
Dores agudas ou as dores crônicas
Dores do ócio ou as dos labores
Dores concretas ou dores platônicas!

O ser humano é feito de sonhos
Sonhos pequenos ou sonhos gigantes
Sonhos sensatos ou sonhos bisonhos
Sonhos plausíveis ou sonhos distantes!

O ser humano é feito de amores
Desde os mais vis ou amores totais
Amores mato ou amores flores
Amores sós ou amores plurais!

O ser humano é feito de medos!
O ser humano é feito de dores!
O ser humano é feito de sonhos!
O ser humano é feito de amores!

João Pessoa, 04/03/2010.