segunda-feira, 16 de abril de 2012

Mote bom da mulesta IX

Tirando a ferrugem dos versos, escrevendo no mote visto no Blog do Poeta Cícero Moraes:

"Quando a lua sair eu vou roubar
A mulher que roubou meu coração"



De amor, só de amor, tenho sofrido
“Tando” longe desse meu ser amado
Tenho um peito completamente ocado
Onde o meu coração foi removido
Essa ladra levou o meu sentido
Mas d’estar, que vai ter retratação
Hoje a noite, pulando o seu portão
Vou levá-la pra nunca mais voltar
Quando a lua sair eu vou roubar
A mulher que roubou meu coração

Belo Jardim, 14/04/2012.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Tempos de Crise



Em tempos de crise, tudo
Parece menos cabal:
O bem não parece o bem,
O mal não parece o mal,
O certo parece errado
E o simples, tão complicado,
Sai fazendo um vendaval!

Belo Jardim, 13/04/2012.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Meu desculpe, Seu Galego



Me desculpe, Seu Galego
Caso eu não nasci no sul
Nem fui lá atrás d’emprego
E nem quis ter olho azul
Mas é que no meu terreiro
Sinto um gosto brasileiro
Com tanta das vitaminas
Que nunca, num só instante
Cogitei ser retirante
Das fronteiras nordestinas

Sou muito mais ser daqui
Muito mais que ser de lá
Sou mais o meu tambaqui
Sou muito mais meu preá
E nem me venha com dó
Toco em FÁ o meu forró
Me acabo num xerém
Mato a pau, bebo o veneno
E não me sinto pequeno
Do lado de seu ninguém!

Belo Jardim, 11/04/2012.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Quando for pra sonhar



Quando for pra sonhar, sonhe com força
E querendo um querer, queira com gosto
Se entrar pra lutar, lute disposto
A deixar que a pancada te contorça
Ao chegar ao limite, se retorça
E esprema um tiquinho de algo mais
Com a faca nos dentes, vá atrás
Mire o sonho, se pense indestrutível
Ponha o dedo na cara do impossível
E lhe mostre do quanto sois capaz!

Belo Jardim, 03/04/2012.

terça-feira, 27 de março de 2012

Parceria com Gleison Nascimento

Nos "asseguires" segue uma parceria incidental minha e do Poeta Gleison Nascimento, nascida de uma décima de 11 sílabas que fiz e o Poeta seguiu nesse meu mote.

MOTE:
"E lá se perdeu outra quase que Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar"





Jessé Costa:
No dia que deu por gostar de Leléu,
Tereza de Joca perdeu-se na vida;
Vestiu um vestido, se fez esculpida
Soltou seus cabelos, ficou um pitéu;
Querendo o pecado, esqueceu-se do céu
Chegou em Leléu e danou-lhe um olhar
Que (Vixe Maria!) Leléu sem piscar
Sumiu com Tereza detrás duma planta
E lá se perdeu outra quase que Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar!

Gleison Nascimento:

Mocinha de Tana, mulher de respeito
daquelas que dá muito gosto de ver.
Perdeu-se na vida após conhecer
Birinha-Bidóga, malandro suspeito.
Birinha meteu logo a mão em seu peito,
pegou-lhe de jeito, capaz de torar,
deu beijo de boca, levou pra jantar,
depois a Mocinha é que foi sua janta
e lá se perdeu outra quase que Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar!

Jessé Costa:

Cremilda Lindóia tão linda e tão pura
Cabaça zerada, carola de igreja
Bebeu só um gole de uma cerveja
E pronto! Bastou, foi grande a loucura:
Cremilda botou uma mão na cintura
A outra no quengo e danou-se a dançar
Puxou Nego Tõe, começaram sarrar
De beijo de boca, de língua e garganta
E lá se perdeu outra quase que Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar!

Gleison Nascimento:

Danado foi ver Antonina de Zé.
Mocinha formosa, criada em convento.
Depois de crescida queria um rebento,
saiu se agarrando com homem e mulher...
Mudou-se pro quarto d'algum cabaré,
trabalha fiado... Não sabe cobrar,
só vive escorada na porta dum bar
catando o malandro que mais lhe encanta...
E lá se perdeu outra quase que Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar!

Jessé Costa:

Mulher quando endoida que sobe seu facho
Não há nesse mundo “consêi” que a suprima
É fogo subindo de ladeira à cima
É água descendo de ladeira à baixo
Neném de Dudé já raspou tanto tacho
Dos machos da feira que vão lhe “ajudar”
Que chega dá pena Dudé vir falar:
“Neném de tão quieta parece uma infanta”
Pois lá nunca foi nem de longe uma Santa...
Tem vaga no céu e ninguém pr’ocupar!

Parceria Internetada, Miúdos de Fevereiro de 2012.

sábado, 24 de março de 2012

Racionando o racional



Racionando o racional
Hoje vê-se a juventude
Seus valores, sem moral
Seus princípios, sem virtude
Se despencam no talude
Da felicidade a jato
Do prazer imediato
Do vulgar, da aparência
Da bestice como essência
Do consumismo insensato!

Querem tão somente status
Parecer é o que importa
Tudo indiferente aos fatos
A involução se aporta
O futuro se entorta
Nessa massa de manobra
Que tudo que a mídia obra
Tal qual moscas varejeiras
Abocanham nas carreiras
E ainda espalham a sobra...

Pelas luzes do glamour
A razão é racionada
Pobre da Belle de Jour
Morreu por não ser “safada”
E a mocidade “arrochada”
Segue se arrochando nesses
E noutros vis interesses
Sem notar que são reféns...
Sem “porquês” e sem “poréns”
Quem não quer um gado desses?!

Belo Jardim, 24/03/2012.

sábado, 17 de março de 2012

Meiguice meiguiçadora



Menina, coisa coisosa
Lindeza quilometrada
Dos quilometro comprido
Que dá volta na estrada
Outro dia, por bestice,
Fui medir tua meiguice
De palmo em palmo contado
Mas nas conta dos milhar
Me perdi no meu contar
Tava todo meiguiçado!

Era tanta da meiguice
Meiguiçando apoteose
Que meu peito quase embarca
Por meiguice em overdose
E derna de desse dia
Tua meiguice judia
Os nervo do meu sistema
E toda minha brabeza
Quando vê tua lindeza
Se mingau-de-cremogema!

Belo Jardim, 17/03/2011.

domingo, 11 de março de 2012

Gostos por Timbaúba



Um gosto de regressar
A minha terra natal
É comer uma bacia
De acerola com sal
Com pai e mãe censurando,
Me dizendo: isso faz mal!

Outro gosto que detenho
Vindo a princesa serrana
É do copo duralex
Chêi de doce de banana
Tome doce e cream-cracker,
Como e nem pisco a pestana!

Mas o gosto que mais gosto
Que chega se extravasa
É o gosto de saber
Que mesmo criando asa
Inda sou cheio de gosto
E gosto daqui de casa!

Timbaúba, 11/03/2012

domingo, 4 de março de 2012

Soneto pra Moça-de-raio-de-sol

RAFAELY foi feita de um raio de sol. Ela foi a própria luz no formato de gente humana. Um facho de claridade 24h diárias. Luz que pipocava do pulsar de um peito-astro-solar, descia pra barriga, dava um nó no umbigo, subia de novo pra garganta e se gargalhava luzindo em formato de sorriso.

Quem conheceu Rafaely, ao perceber, se encantou; que Rafaely foi feita de um raio de sol.

Mas nossa Moça-de-raio-de-sol teve que nos deixar, sendo convocada pelos céus para abrilhantá-lo. E por não saber expressar meu pesar de outra forma, decidi escrever este soneto:




Quando a luz se apagou do teu olhar
E o rubor se esvaiu da tua pele
O meu mundo teimou em não brilhar
O meu “Lindo” perdeu todo seu “L”

E agora do “Lindo” resta o “indo”
Indo inda onde a dor menos martele
Onde a mente, no teu sorrir infindo,
Lembra a tua alegria, Rafaely...

Se a vida pregou-nos essa peça
Ao deixar-te, assim, com tanta pressa
E ao deixar-me esse nó que me sufoca

Tua luz inda vive em minha vida
Fostes cedo, mas não como vencida...
Dorme agora que a dor já não te toca!

Belo Jardim, 04/03/2012.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mote bom da mulesta VIII

Mote visto e repassado pelo Poeta Luciano Pedrosa, que o ouviu numa cantoria do malassombrado Valdir Teles com Zé Cardoso. Tás vendo... tem como, com essas arrombosidades grandiásticas, o cabra não ser doido por poesia? Tem não, viu!! Pense num mote da mulesta!!

Mote:
"Dez minutos de amor sendo com ela
Vale o resto da vida sem amar"


Onde eu disse:



Só a vejo, assim, de vez em quando
Passo um dia ao seu lado e já depois
São semanas que afastam a nós dois
São semanas que passam se arrastando
Mas ainda que o tempo, torturando,
Tente às vezes roubar-me todo o ar
Eu sei bem quanto vale lhe esperar
Pois a vida ao seu lado é bem mais bela
Dez minutos de amor sendo com ela
Vale o resto da vida sem amar!

Belo Jardim, 17/10/2011.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Cominco



Cansado, me deito e fico;
Quando a noite passa o trinco
E a solidão faz bico
Ao ver meu gato cominco
Amedrontando meus medos
Tentando morder meus dedos
Enquanto com ele eu brinco!

Belo Jardim, 13/02/2012.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Confiança eu garanto que lhe tenho



Confiança eu garanto que lhe tenho,
Não duvido de nada que tu dizes,
Sei que não tens o sangue das atrizes
E por isso tranqüilo me mantenho,
Mas é triste saber que não detenho
Do teu lado, sequer uma centelha
De fiúza, de fé, de paz parelha;
E assim sinto o ranço do desgosto
Nesse amor que de lindo só dá gosto
E de doce que é se junta abelha!

Tu escondes "bobagens" por tolice,
Pois "bobagens" na sombra do mistério
Crescem tanto que o mais ditoso império
Se amedronta na sua gigantice...
Confiança eu lhe tenho e já lhe disse!
Não esconda de mim nada que seja,
Não me esconda sequer a brotoeja,
Pois pra ti minha vida é toda aberta
E a “bobagem” não dita e descoberta
Tu não sabes o quanto que caleja!

Belo Jardim, 04/02/2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Meio mundo faz tibêi



Cum ela eu sô mai que um
Mai que dôi, bem mai que trêi
E meu peito se fai “Tum”
Uns mêi mundo fai “Tibêi”!

Belo Jardim, 03/02/2011.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

E tanto quanto sobrava...



Queria querer quem quis
Quando o querer nos bastava
Quando o quanto era o juiz
E tanto quanto sobrava...
Mas hoje vivo infeliz
E meu peito inda me diz:
Idiota, ela te amava!

Belo Jardim, 01/02/2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Setilha ao Nordeste



O nordeste é o terreiro
Do guerreiro Lampião
Onde Antônio Conselheiro
Rezou pela salvação
E fez, de tropas, boneca;
Foi aqui que Frei Caneca
Sonhou a revolução!

João Pessoa, 07/05/2010

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tempo pra me ser



Faz tempo e nos falta tempo
Mas é tempo de se ter
Que o tempo tem muito tempo
E dá tempo, é só querer...
Quero ser-te todo tempo!
Queres tempo pra “me ser”?

Belo Jardim, 24/01/2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Aquele nome no caderno



Do amor de minha infância
Nada mais parece eterno
Mas me lembro a ilusão
Do "gostar" tão puro e terno
Que crescia uma parcela
Sempre que o nome Dela
Escrevia em meu caderno

E ficava olhando o nome
No papel em manuscrito...
Nome não, paixão por Ela;
Que, de ler, ficava aflito
A sonhar qu’Ela pegasse
Seu caderno e me mostrasse
Também o meu nome escrito!

Belo Jardim, 23/01/2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Flamboyant bontando flor



Num cenário esturricado
Uma flor vê-se se abrir
E o flamboyant florir
Frente à seca a todo lado

Vendo tudo amarronzado
Flamboyant não se entrega
Com mil flores se carrega
Flamejando avermelhado

Flamboyant botando flor
Mais parece Deus pintor
Repitando a natureza

E se um dia eu renascer
Vou pedir a Deus pra ser
Um flamboyant, com certeza!

Belo jardim, 16/01/2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Baião com Thyelle Dias

Baião feito de improviso com a Poetisa Thyelle Dias outro dia desses de noite.



JC - Tou rindo da solidão
JC - Todavia a essa altura
JC - Bate e grita o coração
JC - Que meu riso é já loucura
TD - Sou palhaço de uma sina
TD - Que agora descortina
TD - No palco duma procura.

TD - E essa procura me acha
TD - Vez por outra a procurar
JC - Como o vento vê um rio
JC - Procurando pelo mar
TD - Enquanto não vou achando
TD - Continuo procurando
TD - Até o dia que achar.

JC - E enquanto eu não encontro
JC - De garra na solidão
JC - Mantenho o riso no rosto
JC - Abafando o coração
TD - Desabo os zói num sorriso
TD - Que chorar é prejuízo
TD - E empobrece a visão.

Belo Jardim e Livramento, 29/12/2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Impasse



Quando o sol da distância sobe o céu
E a quentura da falta arde o quengo
Dá saudade da sombra do teu dengo
Onde eu ia esfriar meu fogaréu

Por "tar” longe de ti me sinto ao léu
E a vida me faz de mamulengo
Não almejo, não busco e não arengo
Me contento em viver de déu em déu

Mas sumistes já faz tão longos dias
Que voltando não sei se ainda irias
Outra vez me olhar apaixonada

E agora não sei se é direito
Eu fechar a porteira do meu peito
Pr’as andantes que passam nessa estrada!

Timbaúba, 09/01/2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Filósofa do Cabaré



A terça-feira daquele mês de outubro de 2010 ia alta, já beirando o outro dia e, a convite de um primo que passava temporada em João Pessoa; fomos, os dois, conhecer a celebre Rua da Areia, reduto das casas de baixo meretrício Pessoenses.

Na outra ponta dessa história, aquele outubro carregava nas costas o nono mês do término do meu enlace com ela, mas Carolina ainda teimava em aparecer nos meus sonhos e aquela terça-feira, que já ia tão alta, aparentava ser só mais um outro começo de madrugada na tentativa de esquecê-la.

Chegamos à Rua da Areia e entramos no único reduto que ainda estava aberto. Era um bar de luz verde, paredes mofadas e mesas enferrujadas. Ali encontravam-se três putas e uma meia dúzia de bêbados. Sentamos numa mesa e pedimos uma cerveja. Em pouco me levantei e fui até a radiola de ficha. Dois reais, algumas dedadas na máquina e pronto: Por Amor, Roberto Carlos. Ainda nas primeiras notas da música algum dos bêbados disse um sonoro “Eita porra!” e em seguida ouvi um estampido de um fundo de copo batendo forte na mesa, mas até aí tudo normal dentro do referencial.

Ao voltar à mesa constatei que já se encontravam muito bem sentadas e servidas duas sócias-produto do estabelecimento. Sentei-me junto aos três e já senti uma mão na minha coxa, mas novamente até aí tudo absolutamente normal dentro do referencial.

Entrei de bigú numa conversa altamente sem sustança dos três, enquanto degustava cada verso de lamento da música que derramava pesares por todo o cabaré. Porém, não demorou muito e a música findou-se; sendo rapidamente substituída por um brega daqueles “chupa-que-é-de-uva”. Nessa hora meu primo, sujeito despachudo e furniquento, levantou-se com a puta menos feia e começou uma dança aparentada com a dança do acasalamento ou sei lá que peste era aquilo...

Enfim, cenário montado e conjuntura explicada, vamos agora às vias de fato. Aqui começa a parte de Fernanda Cristina nessa história.

Fernanda Cristina era o pseudônimo da puta magra das canelas finas que ficou sentada comigo à mesa. Era ela a proprietária da mesma mão que ainda continuava a passear pela minha coxa – Situação altamente normal dentro do referencial.

Ela; de cigarro no bico, maquiagem exagerada, gestos longos e rascunhando sensualidade, tentando se fazer valer mais que 20 reais. Eu, ainda ouvindo os ecos do “se não for por amor, me deixe aqui no chão”, atingido mortalmente na alma, sem perspectiva de amar outra vez e tentando parecer forte. Nós dois naquela mesa, interesses opostos e um diálogo:

- Não vim aqui atrás de sexo não, viu dotôra.

- Tão gatão com essa carinha de bebê... Avee, que tu deve ser uma máquina...

- Moça, deixe de coisa... qual seu nome de verdade?

- Fernanda Cristina, mas chame como quiser

- Pois Fernanda, me diz uma coisa: o que tu faz quando não tá trabalhando aqui? Tu tem filhos?

- Aff... tenho sim, dois e estudo direito durante o dia... Por quê?

- Curiosidade... Mas vem cá, tu já amasse alguém de verdade alguma vez na vida?

- Sim, sim... todo mundo ama um amor de verdade alguma vez na vida.

- Pois e por que tu veio parar aqui?

- Não quero falar sobre isso, não... que mulesta tu quer?

- Curiosidade, moça. Mas e essa pessoa que tu amou, esquecesse ela?

- Não, mas sabe como é né: Um amor de verdade não se esquece, ele adormece.


Varei-te! Na hora eu peguei um pedaço de guardanapo e anotei isso. Poesia da mulesta que essa tinhosa disse. Fiquei besta...

Pois pronto. Depois disso ainda foram mais uns quatro metros de conversa até que meu primo voltasse com a outra puta e Fernanda Cristina notasse que estava perdendo seu tempo comigo. Dalí voltei pra casa, mas aquele dizer: “Um amor de verdade não se esquece, ele adormece” - Ave Maria! – sei não... foi como se a puta tivesse fechado os olhos e metido o dedo sem pena na minha ferida de amor, cutucando lá dentro. Uma dose aputanhada de poesia pra um coração ébrio. Aquela pontada que pega direto na veia.

Fiquei com aquilo na cabeça e no guardanapo por quase uma semana. Lindo demais um negócio desses: “Um amor de verdade não se esquece, ele adormece”, inda mais dito por uma prostituta que hoje amargura o fundo do poço e confessa ainda amar.

Já no outro lado dessa história, dentro do meu peito, lá estava ele: o meu relutante amor por Carolina, que nem adormecer não queria. Tendo esse formato de querença tinhosa, gostar descomunal, amor sem dimensão, lembrança sem freio numa ladeira sem curva. Um querer que ainda dava nó na goela.

E foi inspirado por esse misto de filosofia putanhosa com chagas de amor ingrato não esquecido, que acabei dando vida a um dos poemas que mais me agradam até hoje. Poema esse que nasceu dessa conversa de mesa de cabaré, catalisado pelas lembranças do meu querer por Carolina e que, a pedidos, a linda voz de Bruna Alves musicou.






O que eu sei é que de noite
Quando eu vou dormir
Num lindo sonho tu vens a rir
Me dizendo baixinho,
Me arrepiando todinho...
“Ai que bom, que bom sentir”

E eu não sei se ainda posso ser querido, querida
Se um novo amor tão garrido e sem medida
No meu coração pode existir

E no meu peito – pobre peito, iludido –
Ainda repousa, depois de muito sofrido,
Aquele amor que eu cultivei pra ti

“Que um amor de verdade não se esquece, ele adormece”

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mote Bom da Mulesta VII

Escrevendo por riba desse mote, que ouvi numa cantoria da mulesta dos cachorros:

Mote:
Se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!





É beleza que deixa o sol sem jeito
Esse riso sorrindo luz em tudo
Essa pele macia qual veludo
Esses olhos olhando - olhar espreito -
E o sinal ostentando o seu direito
De beijar esse queixo tão querido
Beija um lado e me deixa aborrecido
Mas um dia eu que beijo o outro lado
E se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!

Tua pele é demais pr'os meus visores
Mais parece uma obra do divino
E o teu cheiro? Eu não sei, mas imagino
Que de longe ele faz inveja às flores
Tua voz alivia meus clamores
Nunca vi algo assim, nem parecido
Tou com medo de ter adormecido
E você ser um sonho bem sonhado
E se amar cor morena for pecado
Ninguém reze por mim que estou perdido!

Belo Jardim, 02/01/2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Versejando com Thyelle Dias

Fazendo versos com a gigante Poetisa Thyelle Dias, tirei do quengo essas duas oitavas:



Sem querer eu quis você
De repente eu me vi seu
E fiquei feito um ateu
Procurando algum por quê
Mas nem tudo a gente vê
E nem o juízo entende
Tudo em ti me surpreende
E me faz mais te querer...

Pois querer você já é
Um inteiro do meu dia
Que reluz de alegria
E me completa de fé
Enchendo tanto a maré
Dos mares do meu amor
Que o siri da minha dor
Com medo corre de ré!

Belo Jardim, 02/01/2011.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Tu que me esqueceu



Já não me pego matutando o que seria
Já não me ouço a perguntar se volta a ser
Já não me importa se eu fiz por merecer
Já nem me lembro se você quem merecia
Já não me vale quem dos dois que mais valia
Já desisti de concluir quem mais perdeu
Já me livrei de quase tudo que era teu
Já não encontro em quase nada as semelhanças
Já me esqueci de quase todas as lembranças
Só não ainda de que tu que me esqueceu...

Belo Jardim, 23/12/2011.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mote bom da mulesta VI

Numa roda de versos altamente internetizada, com a Poetisa Mariana Teles e Thyelle Dias, versando em cima do mote retirado do livro do Poeta Zé de Cazuza; debulhei do juízo essas duas estrofes.

Mote:
"Acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!"




Mesmo quando de noite o medo vem
Pelo espaço tamanho do abandono
E carrega os pedaços do meu sono
Pra tentar me fazer o seu refém
Eu sorrio no escuro e vou além
Dou-lhe um susto no medo e logo então
Digo a ele, com mais convicção:
Se garanta comigo qu’eu sou quente
E acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!

Me cansei de viver em prol do amor
De ficar procurando uma paixão
De viver chaleirando o coração
E depois me lascando com a dor
A partir de agora e pro que for
Não m’esforço e nem forço outra ilusão
Vou ficar no meu canto e com razão
Pra que um falso amor não me atente
E acredito que Deus está presente
No silêncio da minha solidão!

Belo Jardim, 21/12/2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Hei de ser um SER HUMANO



Ando muito diferente
Do que quis ser no passado
Eu queria ser HUMANO
Um SER diferenciado
Mas hoje sou só mais um:
Um bicho homem comum
Andando pra o lado errado!

Eu lembro quando moleque
Não entender a razão
Do menino igual a mim
Na praça, dormindo ao chão
Sujo, sem modo, sem nome
E reclamando de fome
Com aquele barrigão.

Eu lembro quando entendi
O absurdo daquilo
Do menino igual a mim
Mas com físico de um grilo
Um bucho só de lombriga
Sem amparo ou mão amiga
De quem passava tranquilo.

Eu lembro quando eu ouvi
Qu’eu seria um dia alguém
E o menino igual a mim
Nunca seria ninguém
Qu’a sorte que Deus me deu
Pro menino ele esqueceu
Ou não quis lhe dar também.

Eu lembro que quis crescer
Pra então mudar o mundo
Onde o povo diz que Deus
Faz algo tão infecundo;
Mas cresci, ficando assim,
E o menino igual a mim
Rotulei por vagabundo.

Fiquei muito diferente
Do que quis ser no passado
Eu queria ser HUMANO
Um SER diferenciado
E perdi-me da proposta
Hoje sou outro ser bosta
Mas eu mudo esse traçado!

Inda é tempo, isso é verdade,
Antes de chegar ao fim
Tenho muito qu'aprender
Pra fechar meu boletim
Hei de ser um SER HUMANO
Contra o destino tirano
Do menino igual a mim!

Belo Jardim, 20/12/2011.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Comentário do Poeta Brás Ivan



Comentando a foto acima, retratada numa confraternização feita por mim e outro estagiário para o colaboradores da fábrica onde atualmente atuo, o malassombrado Poeta/Padre Brás Ivan disse:

A mesa de bar revela,
Coisa ruim e coisa boa
Mas a mesa dessa foto
É da amizade a loa
Jessé! Não terás castigos
Quem tem tanto assim de amigos
Só pode ser gente boa!


Aí, tentando dar ao Poeta a dimensão do quanto esses cabras são grandes de alma e humanidade - indiferente diplomas, cargos e a mulesta a quatro - eu disse:

Pessoas de grande apanha
Seres extraordinários
Indiferente seus cargos
Seus diplomas ou salários
De corpo, alma e tutanos
São grandes seres humanos
Que dispensam comentários!


Belo Jardim 17/12/2011.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Carroça da vida



Eu comparo nossa vida
Como fosse uma carroça
Cada um é seu carreiro
Indo pr’onde achar que possa
E a depender do rumo
Às vezes se perde o prumo
Em caminhos mal tomados,
De pedras, curvas, ladeiras;
De sei lá quantas porteiras
Repletas de cadeados!

E quando a gente acelera
Na pressa do “quero agora”
A carroça segue oca
Pelos caminhos afora
Com sua carroceria
Completamente vazia
De qualquer aprendizado
Segue assim desembestada
Mas chega ao fim da estrada
Sem ter de nada agregado.

Quando vamos devagar,
A carroça rende mais
Tendo tempo de agregar
As coisas que a estrada trás
Segue a carroça da vida
Sendo então abastecida
Com sacos de pensamentos
Humildade, humanidade
Tristeza, felicidade,
E outros tantos sentimentos!

E se a carroça da vida
Se trupica num buraco
Do estoque de alegria
Vez por outra cai um saco
E com alegria a menos
Nos sentimos tão pequenos
Que a viagem desanima
Mas, com fé, um peregrino
Que atende por destino
Joga 10 sacos pra cima!

Belo Jardim, 14/11/2011

Faz parte - Versos femininos



Queria ser, lá que fosse
Do teu gosto alguma arte
Do teu frevo uma sombrinha
Do teu bloco um estandarte
Mas se tu não quer qu’eu seja
Faz parte não ser, faz parte...

Bem melhor ser o enfarte
No peito de quem me quer
Quando solta e semi-nua
Dispa de pudor qualquer
Entregar-me a este tolo
Sem sentir nada sequer...

Faz parte, meu bem, faz parte
Viver é isso ou não é?

Belo Jardim, 15/12/2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Respostinha encabulosa

Ao ser perguntado sobre minha saudade, eu disse:



Saudade é palavra pouca
como é pouco tudo o mais
se fosse pra ser saudade
a falta que tu me faz
não sobraria saudade
dentre todos os mortais!

Belo Jardim, 14/12/2011.