segunda-feira, 1 de junho de 2009

Arritmia



Coração abandonado,
Quando ainda estava amando,
Embora siga pulsando,
Perde o significado;
Bate para o lado errado,
Erra o tempo de bater;
Sem ter mais nenhum "por que"
Para garganta suspende-se
E "talqualmente” o apêndice
Vai servir só pra doer...

É um órgão enganado,
Batendo bem na goela,
Que, de tanto lembrar Dela,
Fica sobrecarregado;
Esquenta o peito rasgado,
Esfria a palma da mão,
Embaça toda a visão
Numa lágrima insistente
E não há quem se sustente
Quando tomba o coração!

Timbaúba, 01/06/2009.

domingo, 31 de maio de 2009

No Popular

Cá na terra onde nasci
Prostituta chama quenga,
Virgindade é cabaço,
Discurso é lenga-lenga,
Desconhecido é boyzinho,
Medo é se cagar todinho
E discussão é arenga!

Timbaúba, 30/05/2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Falência

- A bolsa quebrou
E o dólar subiu;
- Sua firma fechou,
Seu sócio sumiu!

-O prazo acabou;
- Não se preveniu;
- E o banco deixou
Seu cofre vazio!

- Em casa chegou;
- O cão lhe estranhou
Quando, a porta, abriu!

- Sua fonte secou;
- E a mulher que amou
Com outro fugiu...

- Sua casa caiu;
- E o que lhe sobrou
A água levou
Na chuva de Abril...

- Sem nada ficou;
- Mas não deu um piu;
- Apenas mudou
Pra beira do rio!

- Na lama atolou;
- E não mais saiu...

- Então se matou!

-Mas se alguém notou
Não sabe, não viu!

João Pessoa, 21/05/2009.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Crise do Divino

(Um Causo Nordestino)


De repente escureceu
As vinte pra o meio dia
E tudo ficou no breu
(No mundo nada luzia)
Pois o sol esmoreceu
Falhando sua bateria

E passada a garantia
Deus pediu um orçamento
Pra autorizada do “dia”
Que lhe cobrou pelo intento,
Numa grande revelia,
O seguinte pagamento:

De Saturno um anel
E quatro corpos celestes
E das divisões do céu
Pediu metade do leste
E ainda descontento
Dez mil arrobas de vento
E a sombra do Everest.

Mas Deus disse: “Tá cá peste,
Tá cá gota, esse menino,
Desse jeito tu me quebras!
Tenha senso, tenha tino
Que cá crise mundial
S’eu gastar mais um real
Deixo até de ser divino!”

Prosseguida a peleja
No vão da negociação
Deus já tava desistindo;
Foi quando da escuridão
Veio uma voz Severina
Daquelas bem nordestinas
Propondo uma solução!

E num é que era Biuzin
Lá do alto do Cruzeiro
Que tava ouvindo a pendenga
E como um bom futriqueiro
Cutucador de buraco
Decidiu dar seu pitaco
Para o nosso criador

Disse: meu santo Senhor
Se o sol está quebrado
Se o breu tomou o mundo
E o dinheiro está contado
não se ponha aperreado
Pois eu tenho uma saída

Arranje um grande balaio
Que seja extenso em volume
Depois atole ali dentro
Pra mais de mil vaga-lume
E faça que ele se aprume
No eixo do vão solar
Para a terra alumiar
Até que o sol se arrume

E Deus disse: eita Biuzin
Que idéia genial
Uma solução tão simples
Pr’um problema mundial
Que na tua inteligência
Vai me livrar da falência
E me manter divinal

Já como agradecimento
Por tanta sagacidade
Beba da minha bondade
Não se acanhe e tenha fé
Diga-me o que você quer:
Ser rico, belo, famoso,
Poderoso? O que quiser!
Mas biuzin disse: Divino,
Como já sou nordestino
O resto é bicho de pé...

João Pessoa, 11/05/2009.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cinco

Já se foram cinco meses
Que juntamos nossos mundos;
Doze milhões novecentos
E sessenta mil segundos
Passados tão velozmente
Quanto a estrela cadente
Que voa no breu profundo

Foram cinco meses rasos
Com recorde mundial
E Cento e cinqüenta luas
De brilho tão magistral
Construindo a cada dia
Cinco meses de magia
Contra tudo que é real

Para meus cinco sentidos
Foram cinco meses latos
Onde apurei a visão,
Meu paladar, meu olfato;
Aprendi a te escutar,
Mas não vou te enganar
Que gostei mesmo do tato!

Ah! Cinco meses contados
Para cada operação
Sorrisos multiplicados
Somada nossa paixão
E a Tristeza ou aflição
Quase toda dividida
Ou então subtraída
Do nosso “um só coração”

Foram cinco meses simples
De noites enluaradas
Onde cinco pingos d’água
Anunciam chuvarada
E estejas preparada
Que uma coisa é certeira
Passamos só a porteira,
Começa agora a estrada!

João Pessoa, 05/05/2009.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Evolução

Fui criança, menino apaixonado
Pelos olhos mais lindos de minha Rua!
Ora, pois! Eu queria ser a lua,
Mas no amor não gerava um só olhado.
Lembro que nos folguedos do passado,
Por eu ser tão franzino e pequeno,
Nunca fui um retrato de moreno,
Muito menos polícia ou capitão,
Nem tão pouco fui rei, nem fui ladrão;
Era apenas um pobre no sereno...

Hoje em dia, pra amar e ser amado
Sou moreno, careca e cabeludo
Sou galego, ladrão; sou rei, sou tudo;
Desde que eu esteja do seu lado!
Junto a ti sou um arame farpado
Protegendo a divina criação
Sou toró despencando no sertão
Sou um beijo no escuro, bem roubado,
Sou bilhete de amor improvisado
Viajando no bar de mão em mão!

João Pessoa, 23/04/2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Amarração

(Pois na briga do mar com a praia, quem se lasca é o caranguejo)

Tempo traz tempo e chuva traz vento;
Tudo na vida quer tempo e medida;
Antes cautela que arrependimento;
Coisa cedida, ou tá podre ou moída.

Primeira pancada é que mata a cobra,
Aconselha a raposa e morre a galinha,
Banana madura não fica no cacho,
Agulha sem fundo não arrasta linha.

De boa intenção o inferno está cheio,
No ano inteiro enriquece o banqueiro,
Asno que tem fome a manjedoura come,
Já dos descuidados comem os rendeiros.

Tolo é o cão que acha osso e não rói;
Contra esperteza, esperteza e meia;
Cave o poço antes de sentir sede
E só divida a esposa alheia.

Irmão de barqueiro não paga a passagem,
Visita e pescada em três dias enfada,
O Leite da vaca não mata o bezerro,
Cajueiro doce é que leva pedrada.

Bem mais vale sê-lo do que parecê-lo,
Mais vale ter graça que ser engraçado,
Janelas fechadas são olhos de cego
E livros fechados não fazem letrados.

Formiga e babão tem em todo lugar,
Na necessidade se prova a amizade ,
Na seda mais fina é que a mancha se apega,
Nem toda mentira acoberta a verdade.

Melhor ser fanhoso a não ter o nariz,
Nunca se esqueça de desconfiar,
O carro não anda adiante dos bois
E o jogo só finda ao juiz apitar!

João Pessoa, 21/04/2009.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Chinelo de Couro

Nas tiras de couro da minha chinela
Calcei a saudade da bela morena
E em cada passada recordo à pequena
Sorrindo a tornar minha vida mais bela

Calcei a saudade no couro castanho
Da onça menina da cor do pecado
Da onça mulher de trejeito risonho
Da onça marrom d’olhar esverdeado

Do couro da bela retirei as tiras
Que prendem meus pés nessa velha chinela
Matei minha onça num tiro sem mira
E ando morrendo de saudade dela

João Pessoa, 17/04/2009

sábado, 11 de abril de 2009

Uma Questão da Saudade

Nas Terras de um Sentimento Lato



A saudade emburacou
E ergueu assentamento
Chegou-se de mala e cuia
Confiscou meu pensamento
E alegou legalidade
Na improdutividade
Do meu lato sentimento

E tendo tentado tudo
Pra findar essa invasão
Apelei pro advogado
Do escritório da razão
Falei desse assentamento
Da invasão no sentimento
e pedi reintegração

Contei da separação
Nos caminhos da lonjura
Falei do tempo que corre
Agravando a conjuntura
Disse qu’este é o motivo
De estar improdutivo
Meu amor, minha loucura

E o doutor disse: Se acalme
Não precisa exaltação
Esse caso tem saída
Sem muita complicação
Volte pra perto d’amada
Faça lá sua morada
Que a saudade é expulsada
Pelo usucapião...

Timbaúba, 10/04/2009.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Já fui Herói certa vez



Eu que nunca fui herói
E nem tão pouco valente
Vi-me num sonho de ação
Salvando-te dum vilão,
“Sem vergonho” delinqüente.

Eu, ali, trincando os dentes;
Empunhava a baladeira;
Botava a pedra no meio;
Esticava a bicha inteira
e soltava a cipoada:

Eita pedra bem mirada!
Eita tiro da moléstia!
Que o ladrão caiu no chão
Defecado e sem ação
Pru riba da própria réstia.

E eu, herói do calcário,
Era então bem abraçado
Por ti, um livre canário,
Que num ato inesperado
Tascou-me um beijo avexado
Sabor de agradecimento;

Foi quando, nesse momento,
Me senti acometido
Por um gosto esquisito
Que nunca havia sentido

E então me veio a razão:
Acordei de supetão
Beijando o palmo de chão
Adonde eu tinha dormido!

Timbaúba, 09/04/2009.

sábado, 4 de abril de 2009

Lua Enamorada

Com quem?
Com quem será?
Com quem será que a lua vai casar?
Louro, moreno, careca ou cabeludo;
Rei, ladrão, polícia ou capitão?
Estrelinha do meu coração!!

Olha a lua esbanjando claridade
Esborrando um brilho fluorescente
Brilha atrás dum amor, um expoente
Que flameje na mesma intensidade.
Mas, cansada, ela perde a faculdade
De brilhar e, assim, se escurece;
É então que o sol vem e aparece
Atirando 10 mil quilos de luz
E, assim, dia e noite se conduz
Num encontro que nunca acontece!

Muda a Lua pelo amor proibido,
Sentimento bem platonificado,
Todo peito tem um desse guardado
Num cuvico entocado e escondido.
É incompleto quem não tenha sofrido
Por gostar de alguém que não lhe quis;
Fui um padre que amava a meretriz
Fui juiz que amava a condenada
E Entre o dia e a noite enluarada
O arrebol delineia a bissetriz!

João Pessoa, 03/04/2009.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Escusa

Amor, ainda era cedo;
Mas já não lembro à hora,
Só lembro que senti medo
Quando me mandaste embora.
Lembro como fosse agora;
Você não me abraçou,
Teu olhar mal me olhou
E eu me senti morrendo
Ao ver que estava perdendo
A musa que me encantou...

Fica amor, fica comigo!
Perdoa o mal que te fiz,
Pois em ti eu tenho abrigo,
És tudo que sempre quis.
Com você eu sou feliz,
Sem você nada tem graça.
Fala o que queres qu’eu faça,
Que faço o que quer que for,
Pra restaurar o amor
Que de ti não mais transpassa!

João Pessoa, 28/03/2009.

sábado, 28 de março de 2009

João Paraíba e a Rua da Areia

Queria fazer amor
Mas não achava pareia
E assim João Paraíba
Cansou de afinar a pêia
Descabelando o palhaço
E pra quebrar seu cabaço
Correu pra Rua da Areia

E assim que chegou à rua
João viu cada visagem
Que olhando pros valentes
Quase lhe faltou coragem
Mas por tanta precisão
Prosseguiu sua procissão
Pela Barão da Passagem

Por aqueles casarões
Encontrava-se de um tudo
Dentre putas e ladrões
Tinha andrajos e veludo
Por onde a noite seguia
Na etílica alegria
Do furor mais cabeludo

Quando então nosso João
Foi desgarrando o receio
Olhou sua mão direita
E a coragem então lhe veio
Foi quando entrou numa casa
E pensou, queimando em brasa:
- Hoje eu vou mamar num seio!

Pois Ficha no jukebox
De um bar da luz vermelha
Entornou uma lapada
Prumode esquentar a orelha
E fitando rosto a rosto
Procurou um tira-gosto
Pra flambar sua centelha

Mas dentro daquela casa
Só tinha o último apelo
Só tinha um dragão de asa
Um resto de desmantelo
Mas ‘cabra’ bebo não foge
E João meio São Jorge
Já cogitava detê-lo!

A mais feia das mais feias
Perto dela era bela
Com os peitos na barriga
E a barriga na canela
Tinha tanta tatuagem
Que até malassombragem
Corria com medo dela

Quando João, aguardentado
Chamou a bicha pra mesa
Contou-lhe que era cabaço
Perguntou: tudo beleza?
E a tinhosa disse: Homi,
Hoje acabo tua fome
Com a minha sobremesa...

Foram então pra um quartinho
Que ficava atrás do bar
João se tremendo todinho
E ela pra lhe acalmar
Dizia sem embaraço:
Você é o quinto cabaço
Qu’essa noite eu vou tirar

Já no ventre da alcova
Do bordel raparigueiro
A quenga tirou a roupa
Com o charme d’um pedreiro
E no fio dessa visão
O brinquedo de João
Mostrou quem chega primeiro

Daí pra frente, confesso,
Não vi como aconteceu
No enganchado das cochas
Foi aquele “benzadeu”
E no mêi dessa procela
Enquanto João tava nela
Um cabaço se perdeu...

Finalizado o serviço,
Pagamento efetuado,
João saiu do cortiço
De sorriso abestalhado
Dizendo: Oh! Rua da areia
As casas que te ladeia
É lugar abençoado!

João Pessoa, Março de 2009.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Transversão

Hoje te vi
Tão diferente
Que um bem-te-vi
Cantou contente...

O Triste olhar
Dos olhos seus
Foi sem chorar,
Nem disse adeus;
E sem aviso
Fez-se um sorriso
Que florescia
Noutra existência:
Na veemência
Da alegria!

A luz solar
Brilhou mais forte,
E o seu andar
Criava um norte.
Nada de dor,
Toda de amor;
Quando sorria,
Em claridade,
Felicidade
Dela emergia!

Cabelo ao vento
Passo preciso
Num tempo lento
Já sem juízo
Que quase para
E se escancara
Pr’essa mulher,
A qual não chora
E hoje aflora
Meu “bem me quer”!

João Pessoa, 19/03/2009.

sábado, 14 de março de 2009

Cortinar do Picadeiro



O teu circo s'expandiu
Quando a lona foi trocada;
E você não mais sorriu
Na graça mais engraçada,
Deixou-me sem serventia
- Palhaço, sem alegria,
Chorando na palhaçada!

Mas hoje, enxugando a vista
Vou dar a volta por cima
Vou me tornar trapezista
Que no alto se sublima;
Nunca mais vou ser palhaço,
Vou ser um homem de aço
Brilhando em sua retina

E quando você me ver
Quem vai chorar é você
Quando eu fechar a cortina!

João Pessoa, 12/03/2009.

domingo, 1 de março de 2009

Desabafo Budegueiro

O matuto entorna mais uma dose de cachaça, com os olhos marejados de lágrimas saudosas; se levanta da cadeira cai-não-cai, com certa dificuldade etílica; olha pra o dono da budega, volta o olhar para seus companheiros de porre e desata a falar. Discursando sem ser ouvido ele então desabafa:


Quando a fome se tornou assolação
E no açude só restou água barrenta
Eu passei a perna em riba da jumenta
E parti atrás de uma solução,
Fui embora deixando meu coração
C’a morena que chorava de desgosto;
Mas jurei voltar, enxugando seu rosto,
E na porta eu talhei com a peixeira:
“Se a saudade aqui hasteou a bandeira
Dentro em breve o amor retoma o seu posto”!

Na cidade não achei outra opção
E tornei-me o que chamam de bóia-fria;
Na labuta tendo a largura do dia.
Minha vida era dar carga a treminhão;
Cortar cana virou minha profissão;
Na precisão isso foi a mim imposto,
Mas lembrar de Rosa me deixa disposto;
E assim, digo aos amantes desolados:
“Que a saudade, como um baú de guardados,
Guarda o amor; acrescentando cheiro e gosto”!

Todo mês eu mando um trocadinho a Rosa
E também mando dizer que estou voltando
Assim que meu Deus jogar chuva, pintando
O marrom de verde e o pau d’arco de rosa;
Mas no ‘enquanto’ vivo a vida desgostosa,
Onde nunca um sorriso é exposto;
Inda aviso aos que me querem ver deposto
E aos que, a morena, ficam atentando:
“Me aguardem, dentro em breve estou voltando
E o cacete vai cantar com todo gosto”!

Autor: Jessé Costa
Timbaúba, 28/02/2009.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Extrato I

A tua pele ao sol tem cor de mel,
Sorriso igual ao teu não há no mundo
E o teu olhar castanho é oriundo
D’abóbada onde adormece o céu;
O teu cabelo escorre como um véu
Guardando da ribalta um infante rosto,
Na osfresia o teu cheiro tem gosto
E a tua boca esconde um firmamento
Onde um palavrear, no tempo ao vento,
Navalha o dia que morre deposto.

E como não te amar em demasia
Se o quadro que pintaste no meu peito
Tem o traço mais firme e perfeito,
Pintado nas cores da fantasia.
Amar-te eu já queria e não sabia;
Sonhar-te era algo rotineiro
E te encontrar, o ato derradeiro
Que culminou num sentimento lato,
Extrapolando o meu melhor extrato,
Na forma do amor mais altaneiro!

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 20/02/2009.



GLOSSÁRIO


  • Abóbada - teto arqueado;
  • Osfresia - faculdade de sentir facilmente os cheiros;
  • Ribalta - série de luzes que ficam ao pé do palco e que iluminam a cena.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Jeitinho Nacional

Quem não tem pião brinca com carrapeta
Quem não ger’um filho educa um cachorro
Quem não vê montanha escala um morro
Quem não tem dinheiro se mete em mutreta
Quem não tem mulher tem que entrar na punheta,
Mas há quem prefira dizer “masturbar”,
Quem não tem pai rico vai ter que estudar
Se não estudar vai morrer na pobreza
Quem tem precisão fala com gentileza
Quem é abastado diz: vá se lascar!

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 18/02/2009.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Espelho de Luna



Com tantos milhões de anos
Como pode ser tão nova;
Ter tantas faces e planos
E quatro fases de prova,
Que a lunação renova
Por ser do sol a aluna
No mar guiando a escuna,
Encantando os pescadores
Com seus raios refletores
Que vem do espelho de Luna?!

Autor: Jessé Costa
João Pessoa, 12/02/2009.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Um Pé de carambola

(em memória da minha avó Maria de Lourdes)


De fronte a antiga casa
Onde cresceu o menino
A luz do sol matutino
Tocava sua copa rasa;
Fazia no verde a brasa;
Despertava a passarada,
Que saia em revoada
Pra mais um dia tão duro;
E o pé, de sombra e ar puro,
Fincava-se na calçada

É verde a recordação
Da planta cheia de vida
Frondosa e toda florida
No tempo da floração,
Era quase um batalhão
Repleta de soldadinho;
Lá tudo que é passarinho
Repousava em segurança,
Onde nem felino alcança
E nem bala de chumbinho.

Pois era um pé encantado
Com flores tom violeta
Que o vôo da borboleta
Tornava mais destacado;
Já o seu fruto estrelado,
Verde-amarelo [a nação],
Formava a constelação
D’estrelas de carambola;
E adocicava a beiçola,
A vista e o coração!

Mas de fronte a antiga casa
Onde cresceu o menino
Para total desatino
Hoje o sol a rua abrasa
A vida não tem mais asa,
O concreto a emoldurou,
E o progresso levantou
Uma cinzenta gaiola
Onde um pé de carambola,
Ali, nunca mais florou!

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 08/02/2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Soneto do Poeta em Luto

Assim morre um amor e nasce um verso,
na grama sobre a cova, esverdeada;
um verde musgo, frio e em terra imerso
é cobertor cobrindo minha amada.

A rima é triste, pobre e nublada;
a métrica enlutada compreende
que ontem muito fui, hoje mais nada;
a inspiração não mais me surpreende.

Ao custo que escrevo esse soneto
me sinto a folha d’árvore caída
que ainda vive, mas já não tem vida.

Em teu sepulcro, hoje lhe prometo
que nunca irei chorar por teu sorriso
e logo encontro a ti no paraíso.

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 23/01/2009.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Meu rio chorou esgoto!



Com sua água afiada
Pelas pedras de amolar,
Desces terroso, a cortar
A cidade enviesada;
E lá herdeiros do nada
Com suas redes de arrasto
Acham apenas um vasto
Rastro de poluição;
Tendo, no rio, a visão
De um destino nefasto.

Jazes tristonho e calado;
Sem atenção despertar,
Sem ter ninguém pra chorar,
Sem ter um advogado;
E assim foste condenado
A carregar a nojeira
De uma gente ribeira,
Um povo vil que te afoga;
Pede fartura, mas joga
Míngua pela tua beira!

Onde morreu tua vida?
Onde enterraram teus peixes?
Hoje só restam os feixes
De água “esgotenecida”;
E a criança sofrida
Dentre os entulhos se banha
Na correnteza castanha
Por onde escoa teu fim...
Capibaribe-mirim,
Em teu perder ninguém ganha!

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 19/01/2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

Eu vi os Seios da Lua no Decote do Horizonte

- Um mote de Antônio Telha -

Corre um mundo de cana
Pelos dois lados da pista,
Pra onde se vai à vista
A noite seguirá plana;
Nesta paisagem caiana
Que é pintada na fronte
- Por entre o rio e a ponte,
Na displicência só sua -
EU VI OS SEIOS DA LUA
NO DECOTE DO HORIZONTE

Um vento frio, sereneiro,
Sobe a ladeira do Borge*
E ali um treminhão foge
De um fim açucareiro.
Nega varrendo o terreiro,
Uma cadeira defronte;
A santa, o jarro, a fonte;
Galinha, porco, perua
E EU VI OS SEIOS DA LUA
NO DECOTE DO HORIZONTE

Estrelas prenhas de luz,
Nuvens tom de cinza forte,
O cheiro da mata-norte
Que o mel de engenho produz;
E a noite assim se conduz,
Subindo e descendo o monte,
Caiando a beira da fonte
Pra nega se banhar nua
E EU VI OS SEIOS DA LUA
NO DECOTE DO HORIZONTE

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 18/01/2009



*Ladeira do Borge é uma das ladeiras que dão acesso a cidade de Timbaúba

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Puta



Seu cabelo impermeável,
Por fumar perdeu o baço
E a tatuagem no braço
- Com um nome mal borrado -
Delata um caso antigo
De um amor bandoleiro,
Que talvez fosse o primeiro
Por ela experimentado!

Os dentes qu’inda lhe restam
Mastigam grande bravura;
Tetas já pela cintura
E seu órgão, antes ledo,
Hoje é um malfazejo
Esbanjando infecção.
Quem ali passá-la mão
Chorará perdendo o dedo!

Mas essa pobre mulher
Que nunca aprendeu a ler
Precisa sobreviver...
Não medindo o que faz,
Procura pelos tarados
Nas portas dos cabarés
E pr’essas baixas ralés
Se vende por dez reais!

João Pessoa, 12/01/2009.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nas Pegadas de Limeira

(Baseado nos versos do poeta Zé Limeira)

Nas pegadas de Limeira
"No vergel da ventania"
Vi um sapo numa jia
Um matuto na rameira
Dom Pedro com caganeira
No sertão de Bogotá
Vi um gato ensaboá
O sovaco em pleno rí
"Tanto faz daqui prali
Como dali pracolá"

"Feliz da mesa que tem
Costela de guaiamum"
Vendo três, entrego um
Eu não abro nem pr’um trem
Presidente disse amém
Em plena mesa de bar
Depois foi furufunfar
Com a filha do prefeito
Napoleão foi eleito
Pr’um cabaré governar!

"É da tampa pipocá"
No fogo de sete gatos
Já tou ensinando aos ratos,
Com camisinha trepá
Pruqui-pruli-proculá
Nas andanças do caminho
Jesus disse bem baixinho
Pra madalena escutá:
"No dia que eu me zangá
Mato você de carinho!"

Autor: Jessé Costa.

João Pessoa, 07/01/2009

Quem é a mulher do Cão?

- Um causo timbaubense -

Doralice é uma moça
Que de moça não tem nada;
Faz na cama, no banheiro,
No terreiro e na escada.
Da fruta prova de cacho,
Come tudo que é macho,
Bem dizer, vive pelada!

E Dôra se apaixonou
Por conhecido ladrão,
Que o povo famigerou
Pelo apelido de “Cão”,
Matador por profissão
Que já era emansebado
Com outro couro furado;
Pia mesmo a confusão!

Quando a nega do cachorro
Dava uma vacilada,
Dôra subia no morro
Só pra dar uma pimbada,
Mas de tanta cachorrada
O boato se espalhou
E a outra escutou;
Tava a briga arrumada!

Deu-se, no lavrar do tempo,
O encontro inesperado
E formou-se o contratempo...
A mulher do procurado,
Já de dedos apontados
No mêi da cara de Dôra,
Disse: Sua traidora,
Vou lhe dar o meu recado!

“Sou bafo da espoleta,
Nunca perdi uma briga
E não vai ser uma preta,
Do bucho chêi de lombriga,
Que vai quebrar minha viga!
Eu sou a mulher de cão!”
E Dôra disse: E então,
E eu num sou a rapariga?!


Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 08/01/2009

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Encantamento

Cultivar um encanto é perigoso;
Quanto mais um encanto de desejo,
Que se encanta nos traços de um beijo
E termina no canto de um gozo
- Um suspiro faceiro e melindroso;
Que alteia a bandeira do furor,
Hasteada no pátio do fervor -
Pra virar do avesso os sentidos;
Entre gozos, suspiros e gemidos...
Dando vida a um quadro de amor!

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 20/12/2008

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Só entre Nós e o Povo de Mocós!

Tu vens dizer que tá apaixonado
Por um vistoso e fogoso rapaz
Que é viril e robusto demais
E te dá colo nos dias nublados?
Pois vou dizendo, seu novo viado,
Que não me importo com contras e prós
E nem tão pouco o que fazem a sós
Mas desde já fique assossegado
QU’ESSE SEGREDO SERÁ BEM GUARDADO
SÓ ENTRE NÓS E O POVO DE MOCÓS

Moça bonita se acalme e repita
Como perdeste tua mocitude
E quem é mesmo José do alaúde
E onde fica sua palafita
Mas vá rezando pra santa bendita
Que o rapaz sobreviva ao após,
Pra que da bala seja mais veloz,
Pois o teu pai sendo o delegado
ESSE SEGREDO SERÁ BEM GUARDADO
SÓ ENTRE NÓS E O POVO DE MOCÓS

Seu candidato não fique avexado
Conte, daí, donde o dinheiro sai
Pra pagar besta gritando “louvai”
E contratar cabo eleitorado.
Esse dinheiro é roubado ou lavado?
Ou foi doado por um albatroz?
E teu partido é o dos teus avós?
Se desembuche que o voto é ganhado
E ESSE SEGREDO SERÁ BEM GUARDADO
SÓ ENTRE NÓS E O POVO DE MOCÓS

Autor: Jessé Costa
João Pessoa, 06/01/2009

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Confabulação

Amantes que não assentam
No “til” suas discussões
Na praia que se acalentam
Avistam seus corações
Atolar em atropelos
No manguezal das paixões

Autor: Jessé Costa
João Pessoa, 05/01/2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Anelar do Tempo



O nosso tempo é medido
No pulsar do coração;
Às vezes passa corrido
E às vezes não passa, não!

Por estar longe de ti
O meu peito mal badala
E o relógio vai, não vai...
O dia dobra de escala

Quanto maior a distância
Que estás da minha mão,
Maior é a impedância,
Maior a dilatação!

Agora, se acaso estás
Dentre a cerca dos meus braços
O tempo se alvoroça
O sol apressa seus passos

Pois contigo ao meu lado
Sofro d’uma arritmia
Que só de piscar os olhos
Vôte! Já se foi um dia...

Autor: Jessé Costa.
João Pessoa, 01/01/2009